A onda sob ao palco

Autora: Aline Gonçalves

O filme A Onda (Die Welle), dirigido por Dennis Gansel, nos apresenta como locação principal uma escola. Os protagonistas: um professor que leciona Autocracia e sua turma de estudantes cuja tarefa escolar incluía um experimento social simples em essência, mas que para a história foi o pano de fundo do nazismo-fascismo.

 O curioso da situação proposta no filme é exatamente o fato de que aquele experimento é tanto possível quanto plausível de acontecer em qualquer lugar comum da vida cotidiana, mensagem clara passada pela narrativa: um sistema autocrático pode nascer de uma sociedade democrática. 

Um dos acontecimentos finais do filme apresenta o professor diante da realidade chocante de que ele e sua turma foram capazes de criar uma autocracia, disseminada além das paredes da escola. E os iniciados no movimento da Onda já perderam completamente a visão do objetivo inicial de se fazer um experimento, vivendo no limiar, no qual mistura-se sem pudores tal experiência ilusória a realidade de cada um dos personagens que o enredo acompanha.

Imagem do filme “A Onda”

A cena em questão se passa no auditório da escola, onde os estudantes estão dispostos na plateia e o professor com o estudante e aliado mais fiel no palco. Cena com câmera estática variando entre planos com o quadro do professor realizando o discurso e planos enquadrando os estudantes da plateia reagindo às suas palavras, que se mantém nessa dinâmica até a tensão entre os presentes aumentar e o travelling com efeito de câmera na mão se tornar a regra. 

À primeira vista parece uma solução extremamente simples para os acontecimentos que se desenrolam neste momento da história, mas é justamente essa simplicidade a grande sacada do diretor. Criando um pano de fundo claro e sem distrações para a verdadeira mensagem a ser passada, os espectadores presenciam o quão frágeis são as fronteiras entre a humanidade e a desumanidade nos seres humanos, podendo facilmente assumir o papel do opressor que executa ações travestidas de bem maior e que são recompensadas intimamente a partir de sucessos pessoais.

Imagem do filme “A Onda”

O cenário do auditório (ou o palco e a plateia) é uma representação simbólica da força que a comunicação tem para os seres sociais, em que o interlocutor utiliza a palavra como ferramenta de conexão e persuasão do público. Cena esta que poderia muito bem ser um show ao vivo com o cantor diante de seus fãs, ou um culto na igreja com o pastor falando para seus fiéis, ou um comício na rua com o representante político ou líder ativista reunido com seus eleitores e apoiadores ou até mesmo aquela reunião de condomínio no prédio da esquina da nossa rua. Como torcidas organizadas, eles brigam, mas sem saber exatamente porque são assim, embora saibam bem as regras que precisam ser obedecidas e a justificativa que carregam como armadura para se defender.

O que pode ser visto ali no auditório é o poder das massas diante de um líder sagaz que se posiciona e utiliza do discurso para atender os anseios de seu público, com um inimigo comum e um propósito inalcançável para o futuro. 

Das regras para a aula de Autocracia, o discurso de ódio passa a ser direcionado a todo capitalismo da Alemanha. Uma motivação para o público seguir seu líder sem pestanejar. Público este que juntos praticam a opressão através da invisibilização das minorias contrárias às suas opiniões, que, para A Onda, é uma causa que não tolera desertores ou oposição. 

A comunicação e o uso da persuasão é a base de um bom líder, que precisa ter a capacidade de conduzir e convencer um indivíduo. Não só Adolf Hitler soube utilizar da palavra, repassada pelos meios de comunicação no Terceiro Reich, como também Getúlio Vargas, na ditadura durante a Era Vargas no Brasil. 

Se o discurso proclamado é um disparate ou uma verdade absoluta pouco importa, como uma vez disse Goebbels: “uma mentira dita cem vezes torna-se verdade”. É o público o responsável pela propagação da Onda, usando do grafite, da panfletagem, da internet e do clássico boca-a-boca. Os meios de comunicação são explorados de maneira assertiva e acessível ao seu público alvo. 

A escola passa a ser a chave do enigma. Espaço no qual se espera a criação de cidadãos questionadores, na Onda, tornam-se meros animais adestrados, descaracterizando completamente o sentido da educação como prática construtora do humano, como defendido por Paulo Freire.

As minorias são representadas a partir da posição solitária do estudante Marco, que expressa seu desafeto com a causa da Onda e é atacado de todos os lados por colegas, amigos e desconhecidos presentes naquele auditório. Suas palavras são ignoradas, suas relações questionadas e sua opinião deslegitimada diante das companhias do passado. A namorada, excluída do grupo por questionar as regras da Onda, se torna a doença a ser tratada, o contaminante, que levou Marco a ter a audácia de tentar impedir a continuidade do movimento.

O personagem Marco em “A Onda”

Hoje conhecemos a expressão “cultura do cancelamento” como um método usado nas redes sociais para atacar indivíduos ou organizações, que ameaçam determinada reputação, a partir do cancelamento em todas as esferas que atuam. Karo, namorada de Marco, representa bem as consequências dessa política, pois ela é cancelada da aula, das atividades extraclasse da escola e do lazer com os colegas. Uma opressão nos moldes da cultura contemporânea.

Contudo, é em Marco que cria-se o estigma, que irá conduzir ao cancelamento de quem não coopera com o cancelamento. O que se percebe em Marco é o efeito de sua exclusão do grupo por cooperar com pessoas “ruins” ao movimento, como a namorada. Essa ressonância apresentada no filme através de Marco é semelhante a situações do cotidiano atual em que o homem hétero cis da família é cobrado e julgado por outros “cidadãos de bem” caso respeite mulheres e LGBTQI+ ou no nazismo as famílias que eram punidas por ajudar judeus. É um dos reflexos do poder das massas no seu lado mais perverso.

A Onda teve um fim no filme, matando diante de todos aquele que melhor vestia a camisa do movimento. Tal como Hitler ou Getúlio Vargas, há o suicídio de quem não tolera perder sua razão de existir naquele grupo. Com maestria o diretor encerra A Onda no mesmo palco onde mais forte ribombou os aplausos de seus integrantes. No mesmo local onde cada um dos transformados pela causa se sentiram representados ao ouvirem na voz de seu líder suas próprias palavras de gratidão ao movimento. Um quase fim para o filme, mas um fim completo para A Onda, que não poderia ser mais emblemática do que no palco diante de uma plateia.