Agnès Varda e a jornada existencial feminina em “Cléo das 5 às 7”

Autora: Nicolle Silva

Qualquer amante de cinema com absoluta certeza já ouviu falar da brilhante diretora belga —  e radicada francesa — Agnès Varda. Um dos nomes mais importantes do cinema moderno francês, Varda possui uma identidade cinematográfica bastante particular e experimental. Uma das obras mais importantes da diretora e que exemplifica grande parte das características principais de seu cinema é o seu segundo filme “Cléo das 5 às 7” (Cléo de 5 à 7, 1962). Nele, Varda retrata a jornada existencial da protagonista e a sua busca por uma identidade própria e autoconhecimento. A partir de uma composição minuciosa da misé-en-scene e um roteiro simples porém dotado de sensibilidade, a diretora consegue demonstrar o conflito interno da personagem, além de ressaltar a experiência das mulheres na França dos anos 60, com ênfase no estudo da complexidade e do apagamento social da subjetividade feminina. Dessa forma, Agnès Varda constrói uma película única e de grande importância para a história do cinema e, especialmente, para o cinema feminista. 

O filme conta a história de Cléo (interpretada por Corinne Marchand), uma jovem cantora que está esperando o resultado de um exame que dirá se ela possui câncer ou não. O espectador acompanha Cléo durante um período de aproximadamente uma hora e meia, enquanto ela passeia pelas ruas de Paris. A protagonista é uma mulher bela, vaidosa e mimada, dedicada a sua aparência. 

A primeira cena em que se observa os principais aspectos da personalidade de Cléo é a em que a personagem abandona o apartamento de uma cartomante assim que ela lhe conta que sua morte está próxima. Cléo aparenta estar extremamente abalada e preocupada com a notícia, de forma que já é possível observar um primeiro vislumbre da fragmentação emocional que irá permear o seu desenvolvimento durante o longa-metragem. Ao descer as escadas do prédio, a personagem se depara com dois espelhos voltados um para o outro, de forma que a sua imagem refletida se duplica de maneira aparentemente infinita. Cléo, então, se submerge na sua própria imagem, na sua própria beleza, a fim de negar os efeitos que o possível diagnóstico da doença já está acarretando em seu psicológico, fato sugerido pela presença das imagens multiplicadas nos espelhos. 

Nesse momento curto, Varda demonstra para o espectador a faceta mais superficial da protagonista, a qual incorpora no seu cotidiano uma visão fetichizada e mascarada de si, voltada para a sua aparência externa e forjada pela sociedade machista ao seu redor, uma que a coloca na posição de uma boneca bela, frágil e vazia, a fim de negar os conflitos emocionais e a complexidade subjetiva que constituem o seu ser, aspecto crucial para se entender o propósito do filme.

Após um breve passeio pelas ruas de Paris, Cléo retorna ao seu apartamento e lá performa a melancólica canção “Sans Toi”, o clímax emocional da película. No diálogo que segue a canção, Cléo expõe toda a frustração enrustida em si em relação ao tratamento que recebe de seus colegas mais próximos, assim como as ansiedades e as emoções conflitantes causadas pela possibilidade de estar doente. Pela primeira vez, a protagonista abandona a persona fútil e mimada que utiliza como máscara e o espectador passa a finalmente enxergá-la tal como ela é: uma jovem mulher repleta de inseguranças e medos, que deseja ser amada e, sobretudo, ser vista como um ser complexo, dotado de qualidades e defeitos. A partir desse momento, Cléo se liberta das amarras internas que prendiam o seu verdadeiro “eu” e embarca numa real jornada rumo ao autoconhecimento. 

A cena descrita denota uma das principais características do filme de Agnès Varda: o estudo do psicológico feminino. Ao demonstrar a transformação de objeto para sujeito complexo de Cléo, a diretora busca valorizar a figura feminina em toda a sua complexidade, assim como ressaltar a difícil vivência e a luta das mulheres na França de sua época para que pudessem ser reconhecidas como seres humanos, cujas necessidades são tão válidas quanto às dos indivíduos do gênero masculino. Varda, através da narrativa, consegue demonstrar os conflitos que permeiam a psique feminina dentro de uma sociedade patriarcal que nega o direito à identidade para as mulheres que não se encaixam em um determinado ideal, assim como a rebelião perante esse apagamento social. 

O conflito de Cléo apenas tem uma resolução no momento em que ela encontra Antoine, um jovem soldado prestes a partir de volta para lutar na Argélia. As inseguranças das personagens  vêm à tona — Cléo, em relação à doença e Antoine, ao medo da guerra —  e eles encontram um no outro, um confidente com o qual podem se abrir e conversar genuinamente. Ao encontrar alguém que a enxerga como ela é, desvencilhada da sua aparência de vaidade e de sua carreira e fama, Cléo passa a aceitar a si mesma, com todos os seus defeitos, suas qualidades e consegue, pela primeira vez, reconhecer-se como um sujeito inteligente e merecedor de amor e atenção. A protagonista, então, abraça o seu destino passivamente e quando o resultado do exame é disponibilizado, confirmando a doença; Cléo não sente medo, nem se desespera. Ela aparenta estar segura e confiante de que vencerá a doença, já que, finalmente, consegue reconhecer a sua força e valor como ser humano e, implicitamente, como mulher.

“Cléo das 5 às 7″ configura-se como um retrato fiel da experiência feminina em sociedade, sendo  de extrema importância para o reconhecimento da necessidade da construção de personagens femininas dotadas de complexidade no cinema mundial. Além disso, a diretora é habilidosa em realizar uma espécie de estudo sobre o psicológico humano, com tons existencialistas refletidos na composição visual e no roteiro do longa-metragem. Desse modo, Agnès Varda apresenta um filme focado no desvendamento da natureza do ser humano, em toda a sua beleza e peculiaridade. É uma carta de amor ao cinema, sempre única, sensível e, sobretudo, humana.