Documentário em pele de ficção: o perspectivismo de Maya Da-Rin em “A Febre” (2018)

Autor: Markus S Enk

Filmes que tratam de temas indígenas, que possuem atores indígenas, ou que são gravados em língua indígena normalmente não apresentam novidade às linguagem narrativas clássicas. Porém, podem conter sua singularidade quando saímos das telas convencionais rumo às formas de atuar, filmar, editar e divulgar os produtos de mídias indígenas. Considerando a quantidade e pluralidade de produções cinematográficas encabeçadas pelos próprios indígenas, refletindo diretamente suas interpretações sobre  o mundo que habitam, de viver e resistir na atualidade, reconhecemos que a maioria destas produções são documentais ou habitam aquele espaço cinematográfico marginal que oscila entre o documental e o fictício. 

Por outro lado, são mais comuns e difundidas as produções encabeçadas por diretores não-indígenas que colocam nas telas interpretações pessoais sobre as realidades ameríndias e que persistem em refletir uma construção de mundo ocidentalizada. Este mundo reflete visões mais convencionais em suas formas fílmicas e, não por acaso, tendem a ser mais difundidas globalmente, principalmente nas telonas de ficção. Mesmo assim, algumas podem ser mais politizadas e, no mínimo, mais reflexivas, enquanto outras continuam reproduzindo estigmas e caem nos estereótipos do bom selvagem ou do índio urbano aculturado, ambos simplesmente perdidos no passado.

A febre (2018), obra dirigida por Maya Da-Rin, se tratando de uma percepção sobre a realidade urbana indígena, foi construída de maneira humanizada se considerarmos que o filme habita no locus marginal da docu-ficção. É provável que escolher tal forma fílmica seja a mais condizente (e prudente) ao tratar de uma realidade distinta à da diretora. Assim, as tentativas de respeitar e levar a sério as existências indígenas persistem, e suas próprias percepções não são apagadas por aqueles que não habitam em sua pele.

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Imagem do filme “A febre”

Acredito que existem duas formas fundamentais para que um espectador deixe formas do pensamento ameríndio aflorarem ao assistir A Febre (2018). Primeiro, aceitar que a roupagem de ficção está camuflando os elementos documentais do filme – isto é, considerá-la uma docu-ficção. Desta forma, os mundos hipotéticos e os arquétipos amazônicos criados pela ficção são eternizados pelas câmeras e podem ser assimilados como concretos pela audiência, entrelaçando sua existência no passado, resistência no presente e persistência no futuro.

Segundo, relacionar o documentário com as teorias contemporâneas dos temas abordados pela ficção, ou seja (e mais especificamente): sugiro que A Febre (2018) seja uma metáfora da teoria do perspectivismo ameríndio e do multinaturalismo, considerada no corpo antropológico como uma sistematização e teoria geral de formas ameríndias de se relacionar, experienciar e agir no mundo e com os seres que o compõem. Tal teoria, que ocasionou uma virada ontológica nas elaborações antropológicas, baseou-se empiricamente em dados etnográficos e se difundiu globalmente por ter questionado e se esquivado de interpretações ocidentais sobre os modos indígenas e possibilitou ao próprio pensamento indígena a ser levado a sério.

A docu-ficção pode ser considerado um dos gêneros cinematográficos pioneiros, mas A Febre (2018) não remete tanto à sua linha convencional de utilizar elementos ficcionais para fortalecer as representações da realidade oriundos do documentários. Pelo contrário, é um documentário totalmente abordado na forma ficcional, e o filme revela isto desde o início. Com menos de 7 minutos de filme, uma senhora Tikuna está na enfermaria perguntando, na sua língua própria, onde estariam suas frutas deixadas na beira-do-rio para vender. Sabemos que esta atriz está atuando ela própria, ou, ao menos, no papel de trazer os produtos da roça para vender na cidade, representando sua própria experiência ou a de parentes próximos – mesmo que seja da comunidade de Guanabara III em direção à cidade de Benjamin Constant ou de toda a calha do rio Solimões até a cidade de Manaus.

Seguindo esta característica central da docu-ficção, de que muitos dos atores atuam a si próprios ou uma história repetidamente representada deles próprios, é arriscado mas quase seguro afirmar que Regis Myrupu, no personagem Justino, um indígena Desana, e Rosa Peixoto, a filha Vanessa de Justino, aprovada provavelmente com uma bolsa indígena para estudar Medicina na UnB, também estão atuando papéis que representam uma realidade própria deles. É desta forma que A Febre (2018) torna-se documentário etnográfico onde os ‘objetos’ de pesquisa se tornam ‘sujeitos’ ao atuarem suas próprias realidades de forma ficcional.

Por se tratar de um documentário, apesar de na roupagem de ficção, o filme requer profunda pesquisa, sendo que muitas das pesquisas sobre culturas ameríndias, desde o xamanismo à relação de predador e caça, levam ao perspectivismo ameríndio. Esta teoria, que se baseia principalmente na noção da construção do corpo, estabelece que todos os seres se reconhecem a si próprios como detentores de cultura (ou seja, humanos) por mais que possuam corpos que não possam ser interpretados como humanos por outros seres.

Isto é, a humanidade somente é percebida, para quem compartilha um mesmo tipo de corpo, ou então para seres especiais como o pajé que pode transmutar seu corpo para transitar pelas perspectivas de outros seres. Assim, a natureza (e a realidade) é mais relacional do que objetiva, variando de acordo com a perspectiva adota. Uma onça vive em comunidade, leva seus filhos à escola e possui cultura como nós, mas assim que nos vê, ela não percebe um ‘ser humano’, mas, seguindo sua relação predador-caça, ela nos enxerga como uma paca ou cutia. Da mesma forma, os urubus, que vêem a si próprios como detentores de cultura, consomem a carcaça animal como uma presa em que seu sangue é cerveja de mandioca. 

O perspectivismo ameríndio tornou-se uma febre na antropologia por propor uma interpretação aos conflitos de perspectivas em situações de cruzamento de espécies. É precisamente esta vivência que carrega a febre de Justino. Cada conflito que aparece no filme, seja de Justino em seu trabalho com o matador-de-índio ou na conversa com a supervisora; seja com a ameaça do bicho à solta; é o perspectivismo que nos envolve para tentarmos compreender a trama por um pensamento ameríndio. No primeiro caso, a presa é Justino, o indígena urbano,  enquanto os predadores representam o modo de vida capitalista que impõe sua supremacia aos trabalhadores; no segundo caso, o predador é o bicho misterioso, atacando porcos ou o local de trabalho de Justino, mas também se torna presa quando um mutirão de caça o persegue ou Justino o encontra no trabalho. 

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Imagem do filme “A febre”

Podemos caracterizar a trama a partir do próprio perspectivismo: cenas humanas (perspectivas alinhadas), sempre em ambientes domésticos e na hora da refeição, com diálogos de iguais para iguais e sem imposições da relação de presa-predador. Existem cenas transitórias (perspectivas em mudança), em que a roupagem dos personagens passa por uma transformação para adaptarem à perspectiva que devem adotar, como nas cenas em que Justino se prepara para entrar ou sair do trabalho e trocar as armas com outra personagem, assim como quando Vanessa se prepara para a grande jornada em direção a Brasília, com todas suas roupas espalhadas antes de colocar na mala e sentindo o impacto das transmutações de perspectivas que irá ocorrer devido a esta viagem. 

Finalmente, as cenas de conflito (perspectivas desalinhadas), que, raramente explícitas, demonstram a constante guerra cosmológica vivenciada cotidianamente pelos personagens indígenas, principalmente devido à mutação da perspectiva de predador-presa, como quando Justino está no trabalho e precisa de fugir dos supervisores para atender ao telefone, ou Vanessa é colocada na mesma categoria ‘índia’ do que a paciente indígena – independentemente que sua etnia sejam bem distintas.

Essa mudança de perspectiva é comentada melhor pelo próprio Justino durante um jantar com seu irmão, após tentar explicar à sobrinha que os bichos do mato são gente no mundo deles e falam e moram como gente, possuindo seus roçados e suas festas assim como nós. Justino usa uma metáfora: quando um mergulhador está em casa, ele é uma pessoa normal, mas assim que ele põe seu equipamento para mergulhar, ele passa a nadar perto dos peixes. Na água, o mergulhador se torna igual aos peixes, mas se ele chegasse na água em sua forma de pessoa, sem sua roupa especial, ele iria espantar os peixes. 

Desta forma, a narrativa de A Febre (2018) se constrói em cima desta metáfora, Justino e seus parentes usando roupagens para mergulharem no mundo urbano de Manaus e tirando esta pele em seu lar para se aproximarem um dos outros como iguais. Ou então, um bicho usando roupagens que espanta “a gente”. Enquanto isso, distantes do conforto da casa, Justino e Vanessa tentam domesticar suas realidades e superar os conflitos com perspectivas alheias. E é para levar a sério o pensamento indígena e manter alinhado o conteúdo do perspectivismo sem espantar os peixinhos, que vestir a densidade da teoria antropológica na pele de uma docu-ficção se torna uma decisão sábia e necessária para colaborar com os próprios indígenas e sua atuação-de-si-próprios, suas realidades e suas perspectivas.