Os papéis de gênero e a representatividade feminina no cinema de Lois Weber

Autora: Ana Clara Amaral de Oliveira

Lois Weber (1879-1939) é um nome muito importante para o cinema e é uma das mulheres pioneiras no universo cinematográfico. Um dos principais temas retratados em suas obras é a infelicidade conjugal, que aparece de forma a nos fazer refletir sobre os papéis de gênero e, até mesmo, o feminismo. Isso é interessante, principalmente, porque estamos falando de uma diretora mulher dos anos 1910 e 1920, contemporânea do famoso e valorizado D. W. Griffith (1875-1948), tendo, na época, a mesma importância que ele, e que já retratava em suas obras tabus sobre a figura feminina ser colocada pela sociedade em um papel inferior em relacionamentos tradicionais. Além disso, a maneira instigante como ela aborda essas questões de gênero em seus filmes, mostrando a realidade crua do relacionamento conjugal, causa bastante incômodo no espectador, levando-os à reflexão. A forma como ela traz à tona o feminismo é uma característica bastante singular de Weber, pois faz isso sem que haja mulheres empoderadas entre as personagens de suas obras.

Em filmes como Too Wise Wives (1921) e What Do Men Want (1921) há uma abordagem bastante peculiar do cotidiano de um casal em que a mulher é dedicada ao lar e faz de tudo pela felicidade do marido, enquanto ele ou está muito entediado com a vida de casado, ou está mais interessado em uma vida de solteiro. A forma como a narrativa vai intensificando cada vez mais essas características cria uma inquietação crescente, pois nos mostra claramente um padrão de papéis de gênero em um matrimônio e Weber nos faz questionar esses papéis ao apresentar como eles surgem de uma imposição social. A nós, que possuímos a tendência de ter uma leitura anacrônica de muitas obras, pode surgir certo estranhamento acerca dessa abordagem porque, hoje, quando assistimos ou lemos algo sobre infelicidade conjugal, já temos o pressuposto bem estabelecido de que há uma expectativa social conservadora diferente para cada gênero dentro de uma relação. Entretanto, essa não era a realidade comum dos anos 1920, portanto, para os espectadores da época é provável que o estranhamento tenha sido bem maior. Vale ressaltar que as personagens de Weber estavam distantes das flappers que se tornaram populares ainda no cinema mudo, interpretadas por atrizes como Clara Bow. 

Pensar em papéis de gênero naturalmente nos leva ao feminismo. No entanto, há certos pontos acerca da abordagem feminista dos filmes citados que podemos problematizar. Considero os filmes feministas porque, ao retratar os reais problemas conjugais, eles deixam claro que a mulher possui um lugar de subordinação imposto, em que deve servir e entreter o marido para que este tenha um lugar cômodo na relação. Quando pensamos em feminismo no século XXI (de novo o anacronismo), logo nos vêm à cabeça a figura de mulheres como Frida Kahlo (1907-1954), além de muitas outras personalidades e protagonistas fortes de filmes, como Que Horas Ela Volta (2015), e séries, como Fleabag (2016). O que todas essas mulheres, fictícias ou não, possuem em comum é a clara personalidade imponente e totalmente contrária ao sistema patriarcal da sociedade em que vivem; elas são figuras empoderadas, com um estilo de vida que demonstra a independência das mulheres perante o sexo masculino. Entretanto, a abordagem de Weber quebra completamente as expectativas de quem espera encontrar uma representação com esse mesmo direcionamento em seus filmes.

Para exemplificar isso, podemos fazer uma breve análise de Too Wise Wives, que começa causando inquietação ao referenciar as clássicas histórias de amor que terminam com “viveram felizes para sempre” e logo depois dizendo que, na verdade, a história que será contada deveria começar com essa premissa, já que retrataram recém-casados, que finalmente chegaram nessa fase de suposta felicidade eterna. Entretanto, quando os filmes românticos acabam, raramente nos perguntamos sobre o que vem depois. O choque que isso causa é imenso por automaticamente desvincular o casal que ainda nem conhecemos daquele modelo que vemos em contos de fadas. O estranhamento é ainda maior quando, antes mesmo de conhecermos a protagonista, ela é descrita como alguém que vive para o marido e para o lar. Pensando na sociedade dos anos 1920, isso não deveria causar nenhum tipo de surpresa, já que isto era o mais comum, mas a forma como Lois Weber verbaliza isso e, posteriormente, retrata um casal em que de um lado temos um marido entediado e do outro a mulher fazendo malabarismos para entreter, sem sucessos, seu esposo causa um choque justamente por ser muito próximo da realidade. O desconforto dessa relação nos faz pensar nos papéis que cada um desses gêneros é condicionado a desempenhar em um casamento normativo. 

Imagem do filme Too Wise Wives (1921)

Em What Do Men Want, a quebra de expectativa quanto ao relacionamento do casal não é tão imediata como em Too Wise Wives, já que aqui as primeiras cenas mostram o casal feliz e apaixonado antes do casamento, sem indícios dessa reviravolta. Entretanto, a primeira cena após ser anunciado que eles se casaram, mostram os dois protagonistas com feições extremamente infelizes e sem nenhum traço do afeto que outrora existiu entre eles.

Imagem do filme What Do Men Want (1921)
Imagem do filme What Do Men Want (1921)

Portanto, é muito importante que Lois Weber seja lembrada com a devida importância que merece, já que foi um dos nomes mais relevantes na sua época e por ser tão representativa quanto à atuação feminina no cinema, com sua carreira de sucesso como diretora e produtora de filmes que retratavam personagens mulheres que, de certa forma, expunham o domínio patriarcal nos relacionamento patriarcais.