Poesia nas mazelas

Autora: Meibe Rodrigues

Falar sobre o filme Temporada (2018), do diretor André Novais de Oliveira, é falar de ousadia, pois o cinema está diante de uma obra que escancara a pobreza e as mazelas da periferia brasileira com poesia. É comum ver em filmes que retratam o cotidiano dos moradores de favelas e morros, cenas de tiroteio no subir e descer de becos e ruas das comunidades.

A ousadia está em negar tudo isto diante dos olhos do espectador. A guerra do tráfico, a fome, o menor infrator, o negro marginalizado, todos estes elementos compõem a geografia de qualquer favela, morro ou aglomerado e por isso não é difícil encontrá-los em qualquer roteiro de curta ou longa- metragem.

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Imagem do filme “Temporada”

No entanto, André Novais surpreende em cada plano de filmagem quando nos presenteia com a beleza da vista panorâmica, o colorido das construções, a calmaria da dona de casa em seu quintal ou o andar ordenado da mulher de mãos dadas com a criança. Ele esbanja planos abertos para salientar a paisagem periférica de Contagem, local das filmagens, mostrando as casas e seus moradores desempenhando suas funções com total maestria e sem nenhuma cena de violência.

Milagre? Não. É apenas o outro lado da vida de homens e mulheres que trabalham, comemoram seus aniversários, lidam com contas para pagar.

O realismo é o fio condutor na história de Temporada.  A rotina de cada personagem torna rica a existência do ser humano. Prova disto é a atividade exercida pela protagonista Juliana (Grace Passô): uma profissional que trabalha no controle e combate a dengue. Ela também atravessa uma crise no seu casamento. 

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Imagem do filme “Temporada”

Pode parecer monótona a vida desta mulher, mas, na verdade, Novais quer  fazer com que nos sintamos parte deste universo. O público é convidado a refletir sobre o seu relacionamento difícil, mas essa condição não fragiliza a personagem de Grace Passô.  A figura do marido nunca aparece, e o incômodo está ali o tempo todo pelo recurso do aparelho celular. Um clima de mistério cresce a cada chamada, mas ela, ao longo do filme, se transforma diante de nossos olhos.

A personagem, com seus cabelos negros e totalmente lisos, surge a cada cena variando no penteado, presos ou soltos. Mas, como se fosse um truque de mágica ou de renovação capilar, a imagem de Juliana reaparece com seus cabelos completamente cacheados, deixando livre cada  fio e nos fazendo entender a beleza dessa mulher que assume novo visual.  A angústia de antes diante da ausência do marido , agora dá lugar à descontração de uma mulher disposta a renovar sua vida.

A desigualdade social está presente nas imagens de Temporada. Isto é revelado em cada locação ou no cotidiano dos personagens. O cineasta incansavelmente revela a poesia deste roteiro através de planos abertos com profundidade e ângulo de câmera fixo. O olhar contemplativo torna-se aliado do espectador valorizando cada ação das personagens. 

Em Temporada, André Novais encanta com cenas de um brasileiro que vive na periferia. As mazelas estão ali, mas as pessoas não perdem a alegria e o encanto que podem estar escondidos numa xícara de café com pedaço de bolo.