Solidão e desassociação em “Anomalisa” (2015)

Autores: Luiza Makino e Matheus Ribeiro de Oliveira

Certamente o espectador que vê Anomalisa pela primeira vez sentirá um misto de inquietude, estranheza e desesperança. Isso porque a animação em stop motion de 2015 dirigida por Charlie Kaufman e Duke Johnson utiliza recursos cinematográficos, como a iluminação e o plano sequência, para transmitir a sensação de solidão e estado de desassociação humana de seu protagonista Michael Stone, um escritor e palestrante cercado por pessoas com faces e vozes idênticas o tempo todo. Até encontrar Lisa.

Uma das características mais marcantes do longa é a escolha dos diretores em retratar toda a trama por meio de bonecos, animando-os pela técnica de stop-motion, sem tentar esconder as linhas que permeiam os rostos das figuras e que são resultado de sua própria construção pelo artista. Dessa forma, cria-se um estado de conflito no qual  o  realismo verossímil — presente na naturalidade dos movimentos dos personagens e de seus diálogos —, colide com a ficção intensa na cristalina artificialidade de todo o mundo de Michael.

Imagem do filme “Anomalisa”

Esse embate entre realidade e ficção resulta tanto no afastamento consciente do espectador do universo criado pelos animadores, já que é explícito o uso de bonecos, quanto na aproximação com a realidade por suas cenas cotidianas, o drama do personagem principal e cenas de close, em que os bonecos ficam mais parecidos com humanos. Esse distanciamento é apenas o suficiente para que percebamos a irrealidade do ambiente que, por sua vez, colabora com a nossa aproximação da própria visão irreal que Michael tem sobre o mundo externo, e, posteriormente, interno. 

Imagem do filme “Anomalisa”

Em dois pontos do filme é possível observar que o espectador e Michael acabam compartilhando o mesmo olhar, uma vez que a atenção do personagem é voltada justamente para a construção de seu próprio rosto, finalmente atingindo aquele ponto de inquietude e curiosidade do espectador ao mesmo tempo em que revela que Michael também está consciente do mundo no qual está inserido e de sua materialidade, sendo também uma alegoria para evidenciar e reforçar o seu vazio interno, justificando sua busca desesperada para sentir algo de novo.

Imagem do filme “Anomalisa”
Imagem do filme “Anomalisa”

De tal maneira, a animação demonstra que Michael vive em um mundo onde se sente deslocado, desassociado do contexto no qual está inserido, incapaz de se identificar com as pessoas que os rodeiam, porque todas compartilham a mesma voz e rosto, não possuindo nada de especial.

Em uma conversa com Bella, sua ex-namorada, Michael revela que há algo de errado com ele, e que tudo é entediante, um reflexo direto de sua visão. 

Ainda, a sensação de solidão e deslocamento é perceptível durante toda a trama. A fraca iluminação dos corredores e de seu quarto de hotel, com uma fotografia mais escura e amarelada, o intimismo transmitido com cenas de tons mais quentes, somado à ausência de outros personagens durante cenas que ilustram a rotina cotidiana, filmadas em plano sequência, evidenciam e aproximam o espectador dessa monotonia e do sentimento íntimo de isolamento e vazio do personagem.

A cena que melhor ilustra esses recursos é aquela na qual Michael faz sua caminhada solitária pela rua após sua conversa com a ex-namorada não sair como o esperado. A cena sem cortes e as cores lavadas pelas tímidas luzes dos postes se tornam palco para a angústia de um homem que caminha sozinho, atormentado por um fantasma do passado. 

Imagem do filme “Anomalisa”

Anomalisa retrata a solidão e desassociação de Michael Stone do resto do mundo. Essas sensações são transmitidas ao espectador não somente pela trama, permeada de cenas e diálogos mundanos, mas também pelos recursos de iluminação, animação, câmera e som. Michael está inserido em um mundo de pesadelo onde, pela repetição, tudo perde seu valor.

Apesar do filme ter sido bem recepcionado pela crítica de uma maneira geral, alcançando a porcentagem de 92% no “tomatômetro” do Rotten Tomatoes, a nota 88 no Metacritic e 7.3 no IMDB, vale destacar que não é possível dizer que o mesmo aconteceu em um dos grande sites de cultura pop brasileiro: o Omelete.

A crítica tecida por Marcelo Hessel discorre sobre como o adultério é tratado pela animação como a solução principal dos problemas experienciados por Michael, comparando Anomalisa com os trabalhos mais famosos de Kaufman e identificando no declínio do homem branco de classe média-alta um suposto padrão em seus filmes e uma limitação do próprio diretor, que seria incapaz de trazer uma conclusão contundente à trama.

Entretanto, apesar do adultério cometido por Michael ser inquestionavelmente reprovável — logo no início do filme nos é revelado que o personagem possui esposa e filho —, analisar a trama de Anomalisa realizando juízo de valores é reduzir a trama a algo que não condiz com sua proposta. Indiscutivelmente, o longa aborda questões mais profundas do que o desejo carnal do homem branco de meia idade. 

Aliás, o próprio nome do hotel em que Michael se hospeda faz alusão à Síndrome de Fregoli, um distúrbio mental que, não coincidentemente, tem como sintoma principal a crença delirante de que aqueles ao seu redor estão se disfarçando, alterando suas aparências, para se parecerem com outras pessoas.

Imagem do filme “Anomalisa”

Assim, consideramos que o final do filme claramente é contundente, pois o objetivo é justamente causar o desconforto no espectador e não saciar seu desejo por um final onde tudo seja resolvido. Em Anomalisa, Kaufman presta respeito às questões existenciais da natureza humana, admitindo que não as pode solucionar de forma rasa. É possível interpretar que Michael está fadado a repetir o ciclo incontáveis vezes depois que o filme acaba, já que este é apenas um recorte desta história.

A escolha do estilo da animação e design de seus personagens permeia tanto a artificialidade quanto a verossimilidade. Kaufman e Duke Johnson, ao criarem Michael Stone com a aparência que difere da de todos os outros personagens, fazem com que o espectador consiga ter a visão do porquê deste não conseguir se conectar com as outras pessoas, ressaltando o vazio e o deslocamento emocional experienciado pelo personagem.

O universo criado aborda questões humanas sensíveis, retratando a solidão daquele que busca desesperadamente por uma fuga do ambiente surreal em que se encontra, a sua salvação. Lisa, por sua vez, busca por validação. Toda a situação é permeada pelo mal estar contemporâneo da liquidez das relações humanas, sua superficialidade e fugacidade.

Talvez a reflexão mais desconcertante que Anomalisa nos cause seja: assim como Michael, quão indiferentes somos em relação aos outros?