Dica: Nos Limites dos Portões (1920)

Oscar Micheaux (1884 – 1951) é o diretor mais importante e prolífico dos race pictures, produções realizadas entre os anos 1910 e 1950 e que buscavam uma representação não estereotipada da comunidade negra. “Nos Limites dos Portões” (Within Our Gates, 1920), o segundo filme do diretor, é a sua obra mais conhecida, sendo o primeiro longa-metragem preservado dirigido por um cineasta negro. Ainda que alguns autores coloquem que o filme é uma reação à visão distorcida e racista do filme “O nascimento de uma nação” (The Birth of a Nation, 1915), de D. W. Griffith, um olhar cuidadoso identificará que o filme é muito mais do que uma resposta, apresentando desvios em relação a convenções melodramáticas e realistas do cinema.

Enredo: Sylvia Landry (Evelyn Preer) é uma mulher humilde e educada, com um passado misterioso, e que viaja pelo norte e sul dos Estados Unidos em busca de financiamento para uma escola de crianças pobres e negras. Ou seja: a protagonista tem um objetivo, ela não somente reage à ação de outros personagens em volta (como ocorre em vários melodramas mudos protagonizados por Lillian Gish). Esse aspecto de “ação” da Sylvia a torna uma personagem que não se enquadra em arquétipos maniqueístas do melodrama, como notou Ronald Green:

Ela não está indefesa e não precisa ser salva por seu amante. Ela é, de fato, o agente, e não o objeto de grande parte da ação dramática. Por meio de seus esforços bem-sucedidos para obter uma educação a fim de ajudar sua família adotiva de pequenos agricultores e por meio de seu ato de encorajar seu pai adotivo a confrontar os abusos do sistema de inquilinos, ela motiva diretamente o confronto progressivo de seu pai adotivo com a aristocracia branca (e indiretamente causa seu linchamento final) […].”

Na narrativa do filme, é interessante a maneira como Micheaux coloca o longo flashback da origem de Sylvia somente no final, de forma que o espectador entenda a parte anterior de maneira diferente (algo que ele irá fazer novamente em “Copo e alma”). O flashback é a parte do filme que causou mais polêmica, pois justamente desconstrói estereótipos racistas. Quando Sylvia é atacada, fica bem claro quem está sendo atacada (uma mulher negra) e quem a está atacando (um homem branco), o contrário do que ocorre no filme de Griffith.

No flashback também é reencenado o assassinato de um proprietários de terras branco a partir da narrativa racista de um jornal, na qual ele é atacado por um homem negro. Minutos antes, o espectador assistiu o que realmente aconteceu, algo totalmente diferente da maneira como é contada no jornal. Essa versão deturpada poderia ser facilmente uma cena de “O nascimento de uma nação”, um filme que afirma a todo momento que se baseia em “fatos históricos”, indicando inclusive as suas referências documentais. Ao contrapor a “realidade” e a “versão oficial”, Micheaux demonstra como os discursos midiáticos e históricos podem ser manipulada para construir “falsas verdades”. Tudo isto somente cinco anos depois da obra de Griffith, um filme que, apesar de ter despertado uma forte reação negativa, foi elogiado por várias figuras públicas, incluindo o presidente dos EUA. Ao escancarar o cinema como uma arte de “construção” de discursos, e não de transparência da realidade (algo defendido por muitos entusiastas da imagem fotográfica e cinematográfica), Micheaux transmite uma mensagem profunda, inclusive para os nossos tempos. Jacqueline Stewart, no texto Uma jornada tortuosa rumo à cidadania: “Dentro de nossas portões”, elogia esse aspecto do filme:

Dentro de nossas portões vai além de criticar as tendências racistas da cinematografia norte-americana branca e da sociedade dominante em geral. O filme também demonstra estilisticamente que há modos numerosos e contraditórios disponíveis de se representar afro-americanos — modos textuais e novos modos cinematográficos poderosos, a serviço de brancos e negros —, complicando qualquer alegação de que essa população móvel e diversa possa algum dia ser representada de forma de todo “realística”.

Desenvolvendo um cinema de forma independente e com poucos recursos, a obra de Micheaux nos convida a entender novas formas de contar historias, uma forma que não se preocupada com a continuidade ou a invisibilidade da linguagem. A parte ficcional é essencial, pois Micheaux não fazia cinema de vanguarda, mas tampouco ele seguia os códigos de Hollywood, por isso o seu cinema é tão desafiador. A limitação da representação em alcançar uma suposta “realidade” se tornou parte da concepção da obra. Quando conseguimos entender essa “outra proposta”, vislumbramos um cinema com uma visão de mundo e da arte bastante complexa e distinta. “Nos Limites dos Portões” é uma das melhoras formas de começar esse vislumbramento.