Dica: “Shoes” (1916)

A diretora Lois Weber (1879 – 1939) foi uma renomada diretora do cinema silencioso. Apesar de seu apagamento histórico, nos anos 1910 ela era geralmente colocada no mesmo patamar de diretores como D. W. Griffth e Cecil B. DeMille, nomes conhecidos do cânone cinematográfico. Estilisticamente, a obra de Weber é diversa, mas ela conseguiu criar, nos anos 1910, uma obra autoral sólida, principalmente na sua abordagem de temas sociais, como aborto, abusos, infelicidade conjugal, pobreza e hipocrisia.

Nos últimos anos, desde meados dos anos 1990, a obra de Weber vem sendo redescoberta. Nesse processo, alguns filmes ganharam mais destaque, principalmente Hypocrites (1915) e Onde estão meus filhos? (Where Are My Children?, 1916). Ótimos filmes que precisam ser vistos. “Shoes” foi feito na mesma época, e também trata de temas polêmicos – pobreza e hipocrisia na família – mas tem uma abordagem mais peculiar.

A protagonista do filme é Eva Meyer (Mary MacLaren), uma jovem shop-girl que sustenta a grande família somente com seu trabalho como atendente de uma loja. Cansada, e com os sapatos desgastados por trabalhar em pé por várias horas, ela deseja fortemente ter sapatos novos. A partir dessa vontade/necessidade, Eva passa por várias questionamentos.

Enquanto Hypocrites é praticamente um filme ensaio conceitual, “Shoes” intercala os comentários ideológicos com momentos focados na subjetividade da protagonista. O tempo fica mais dilatado, mas o filme nunca fica arrastado. Os longos planos fixos, sejam eles abertos ou fechados no rosto da personagem, possibilitam ao espectador uma conexão distinta com a protagonista, ainda que o distanciamento a partir de comentários sociais também seja presente no filme.

A peculiaridade de “Shoes” demonstra a diferença entre a obra de Weber e outros cinemas sociais da época, como comenta a autora Shelley Stamp, uma das principais pesquisadoras das diretoras do cinema mudo, no texto “Lois Weber, Progressive Cinema, and the Fate of “TheWork-a-Day Girls” in Shoes”:

[…] Shoes, como a maioria dos outros “jantares pesados” produzidos por Weber, difere de muitos filmes de problemas sociais dessa época, que muitas vezes buscavam reformar os cinéfilos da classe trabalhadora com sermões solenes sobre temperança, sexualidade e higiene.  Weber tampouco procurou trazer a burguesia “edificante” para a tela, como defendiam os do Movimento Better Films. Em vez disso, o trabalho de Weber visava o público da classe média, o “melhor elemento” do público em geral a que ela se referiu anteriormente, não apenas para recrutá-los em determinadas causas progressivas (embora esse fosse certamente um de seus objetivos), mas também para sugerir uma congruência mais ampla entre a exibição de filmes e as sensibilidades reformistas – sugerir, em outras palavras, que o cinema pode aspirar a objetivos muito mais grandiosos do que a recreação comercial para as massas. A este respeito, a concepção de Weber de um cinema sofisticado para o público da classe média também diferia agudamente daquela de seus contemporâneos, como D.W Griffith e Cecil B. DeMille, que se baseava em adaptações para a tela do conhecido burguês literário, dramático e materiais históricos para angariar respeito pelo ladrão. Weber, por outro lado, buscou envolver o público da classe média diretamente na reforma ativista. (STAMP, 2004, p. 145, tradução própria).