Dica: “Um lugar ao sol” (2009)

Autor: Júlio Figueroa

O documentário de Gabriel Mascaro se detém em personagens que vivem em coberturas de prédios das cidades de Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. Casais, filhos, homens e mulheres sozinhos são escutados e dividem a tela com imagens sugestivas sobre o fascínio que é possuir um pedaço de moradia nas alturas do espaço urbano. Nesse arranjo, o filme lança questionamentos ao público, passando por temas tais como privilégio, pobreza, desigualdade e poder.

O fato de o documentário ter eleito como tema as coberturas de apartamentos ativou nos personagens entrevistados uma disposição à valorização dessa propriedade. A isca jogada por Mascaro foi bem apanhada, ainda que isso não tenha sido planejado. Embora seja um documentário com entrevistas, não é exatamente um documentário de entrevistas, simplesmente.

Mascaro, optando por um recorte pouco comum, decide retratar a elite de grandes metrópoles que elegeu morar em luxuosas coberturas. Adotando esse recorte, podemos pensar que o documentarista não está retratando pessoas aliadas no filme, mas alvos em potencial, pois cúmplices de uma verticalização urbana desnecessária. Há, portanto, uma questão ética que se impõe e alerta sobre o nível de transparência na comunicação entre documentarista e entrevistados. Como devem ser dosadas as informações sobre o filme na comunicação entre documentarista e filmados?

Trabalhamos com esse filme para pensar sobre o modo como as pessoas se comportam diante da presença da câmera, nos termos em que escreveu Comolli no livro “Ver e poder – a inocência perdida”. Nesse movimento, vamos pensar como o filme lida com a apresentação dessas pessoas testemunhadas pela câmera, como elas constroem sua mise-en-scène documentária. A mise-en-scène, encenação originalmente elaborada pela ficção, é aqui também, embora no espaço do filme documentário, instrumento de criação dos participantes do filme, que atuam para as lentes da câmera, mesmo que se trate do registro de uma porção de sua própria realidade.

É a partir da consciência imagética das pessoas filmadas, essa com a qual todos já temos alguma intimidade porque gerimos imagens nossas todos os dias, que as pessoas entrevistadas produzem a sua mise-en-scène documentária, regulam seus tempos, administram os blocos de fala e se reinventam diante da câmera. No filme, há matizes dessa encenação, variando de participante para participante, que tornam mais difícil apanhar e concluir o sentido do que dizem todos os personagens que aparecem na tela. Exemplo disso é um filho que entra em quadro enquanto seus pais estão sendo filmados e ele passa a participar da entrevista. Outro exemplo é a senhora que apresenta objetos de seu acervo, a única que faz isso, enquanto a câmera a segue. Por fim, na última entrevista do filme, a mãe abandona a entrevista – já havia deixado seu bloco de fala, possivelmente -, deixando no enquadramento o filho sozinho no sofá da casa.

O olhar da obra, apesar de em alguns momentos estar ao lado das pessoas entrevistadas, em geral está, de alguma maneira, divergindo delas, criticando a postura dos entrevistados quando é enaltecida a superioridade, simbólica e concreta, de quem mora em uma cobertura. Isso não pode ser generalizado para todos os personagens que aparecem no filme, mas essa é a tônica que rege a maior parte deles.