Fotograma comentado: Tudo que o céu permite (1955)

O cineasta Douglas Sirk (1897 – 1987) é mestre em criar molduras de aprisionamento em espaços domésticos. O recurso é essencial para construir tensões em melodramas, gênero no qual “o deleite que provoca vem do conflito não entre inimigos, mas de pessoas unidas por laços de sangue e amor”(Laura Mulvey, em Notas sobre Sirk e o melodrama).

Os exemplos desses enquadramentos dentro de enquadramentos são abundantes nos melodramas que Sirk fez para a Universal nos anos 1950. Mas nesta seção do “Fotograma comentado” destaco um movimento inverso: quando a moldura é vista pelos personagens, quando ela não está “moldurando” (ou aprisionando) o personagem sem que ele perceba.

Na imagem acima, o casal do clássico “Tudo que o céu permite” (“All That Heaven Allows”, 1955) está na casa do humilde trabalhador Ron Kirby (Rock Hudson). A viúva Cary Scott (Jane Wyman), distante das hipocrisias moralistas do seu círculo social, se abraça ao autêntico Ron, que vive na prática as ideias libertárias de Heny David Thoreau, ainda que não o tenha lido (como comenta uma amiga a Cary posteriormente). A moldura, nesse momento, não enquadra nada. Ela é bloqueada por corpos felizes, ela é vista, ela não é invisível. É um momento de consciência das molduras sociais.

No entanto, ainda assim, a pressão da sociedade sobre Cary é muito grande. Ela chega a pedir a Ron para viver em sua casa por um tempo, mas este recusa. O casamento chega a ser adiado. Preso a seus princípios, depois ele permanece fora da moldura, mas solitário e infeliz (imagem abaixo). O azul, que no filme explode em momentos de hipocrisia e infelicidade, e que era inexistente no fotograma anterior, já é bem mais presente nesse segundo momento. Sirk, para usar suas próprias palavras, escreve com a câmera…

This image has an empty alt attribute; its file name is image-2-1024x586.jpg